Blog do Colégio

A saudosa e desejável indisciplina.

Professor Henrique Vailati Neto

Antes que algum apressado ponha em dúvida a sanidade deste calejado educador, peço algumas poucas linhas de paciência e consideração para com o caráter provocativo do título.

Mais do que a tristeza de corredores vazios que gritam pelos alunos, a exceção vivida priva asescolas de fatores essenciais ao aprendizado e que jamais serão preenchidos por qualquer recurso tecnológico: evidente que falamos do convívio físico e da proximidade social, mas aí, aparece um traço pouco ponderado pelas,a salutar indisciplina enquanto genuína manifestação da vida escolar.

Há que se fazer uma indispensável distinção: evidentemente, não nos referimos à indisciplina deletéria que destrói e, muito menos a aquela que ofende ou magoa, tratamos daquelas atitudes que, fugindo aos padrões regimentais mais rigorosos, compõem a melhor antologia das memórias escolares: quando reunimos velhos colegas de turma as mais saborosas reminiscências são compostas pelas travessuras e situações que burlavam as normas, que nos faziam pequenos heróis coroados por rizadas e nos transformavam em protagonistas de uma vida feliz e inesquecível.

Óbvio que jamais pregaremos o distúrbio, o desrespeito e a anarquia escolar, mesmo porque,o bom regramento no sentido do respeito ao próximo e à autoridade legítima são objetivos essenciais da educação que, em nada, se confundem com a imbecilidade dos padrões castradores do autoritarismo que nascem em atmosferas sufocantes e antipedagógicas.

A riqueza produtiva e a criativa do buscar atalhos inocentes no regramento social, são o mais genuíno exercício de vida saudável em sociedade, formam grupos de lealdade e trabalho, desenvolvem a capacidade de autocrítica, ensinam a aceitar a diversidade.

Mas a sociabilidade necessária, saudável e alegre é a catalisadora essencial do aprendizado, é o sal da terra do educando e o educador.

(Blog Estadão de 12 de março de 2021)

Autoconfiança e irresponsabilidade: mais um desafio urgente para o educador

Professor Henrique Vailati Neto

Quando os índices de contaminação da pandemia começaram a indicar que os jovens estão se transformaram em grupo de risco, não podemos deixar de redobrar nossos esforços para evitar que percamos promessas de vida para a insensatez.

Educadores, em todos os níveis da educação sempre se desdobraram para que os educandos conquistem autoconfiança e autonomia e, um dos primeiros sintomas positivos dessa difícil construção, na adolescência, é o sentimento de onipotência que resvala pela crença na imortalidade: sempre observamos, com um misto de admiração e receio, rompantes de coragem irresponsável que acometem os jovens em busca de autoafirmação.

Em tempos de normalidade, pequenos sustos, arranhões e conselhos sempre surtiram efeito para amenizar essa fase passageira que, muitas vezes, era neutralizada pela orientação, por atividades esportivas e de lazer que consolidavam a formação do caráter sem maiores riscos.

Bons tempos em que tínhamos meios de evitar acidentes e drogas, as maiores ameaças aos nossos jovens: orientações e apoio surtiam, na grande maioria dos casos, a superar essa fase de risco, que ficava como uma espécie de dores do crescimento, restando pequenas cicatrizes de peripécias nascidas do descompasso entre a maturidade física e o amadurecimento psicológico.

Hoje, no entanto, numa desproporção cruel, as fronteiras entre a aventura juvenil irresponsável e a morte se aproximaram no limite do desaparecimento!

Se as campanhas públicas, tardia e inconsistentemente, atacam a inconsequência de parte da população com respeito aos riscos e responsabilidade social na pandemia, cabe às instituições de ensino redobrar seus esforços para, enquanto têm mais acesso aos seus alunos, educá-los para a consciência de que as mortes irresponsáveis pela pandemia não têm nada de heroico, mas de cruelmente egoísta e doloroso.

Certa vez, ante um comentário de profunda falta de caridade para com portadores de defeitos físicos, fizemos uma visita, com toda uma turma, a uma entidade de assistência a crianças que trata de deficientes físicos: ante a luta de médicos, fisioterapeutas e voluntários, a cada passo naqueles verdadeiros corredores de esperança, assistimos ao nascimento de uma consciência da dor alheia àqueles jovens que, nunca, haviam visto esse outro lado da vida e foram expostos à concretude do sofrimento...

Impossibilitados pelos perigos de contágio, não há como colocarmos os jovens mais próximos dessa hecatombe sanitária, mas deveríamos, insistentemente, trazer depoimentos, não apenas daqueles que lutam nas trincheiras da vida, mas de quem enfrentou os horrores da doença e, sobretudo, liderar atitudes exemplares que, muitos adultos, estão se omitindo..

(Blog Estadão de 16 de abril de 2021)

Quando as distâncias desaparecem pela educação

Professor Henrique Vailati Neto

Um dos mais importantes eventos pedagógicos em uma escola para consolidar o ano letivo é a reunião dos responsáveis com a equipe pedagógica: momento em que o Projeto Pedagógico, já concretamente experenciado, pode ser justificado e esclarecido à comunidade escolar.

Como sempre valorizamos, no Colégio FAAP, a maior proximidade possível com nossas famílias, a comunicação digital suscitou dúvidas quanto ao atingimento dos objetivos alcançados nos encontros presenciais: longe do calor das presenças, nos perguntamos se teríamos a mesma empatia que consagra e efetiva nosso trabalho.

Feitas as necessárias apresentações, pudemos sentir o efeito catalisador do interesse educador comum que nivela todos os ruídos de comunicação superando as barreiras do distanciamento físico: a maioria das câmeras abertas, a totalidade dos pais acompanhando, perguntando e interferindo adequadamente como demonstração inequívoca interesse.

Nossas preocupações quanto à qualidade da interação, nestes tempos de intoxicação por zoom, foram, logo, anuladas numa clara demonstração de que o conteúdo das mensagens anulam as limitações do meio o que, no mesmo sentido, reforça nossas condutas pedagógicas na condução do todo do tratamento didático.

Nestes dias nebulosos onde a incerteza é a variável constante, a crença de que educar é o único caminho para se evitar o caos civilizatório que enfrentamos se confirma na ânsia das famílias em garantir a boa formação de seus filhos:muito mais do que a ação devastadora do vírus, a ignorância e a insensibilidade que delas nascem põem em risco séculos de conquistas e a própria vida humana e pondo em dúvida a essência mesma da educação.

E, nesse sentido, fica patente, ante a alienação de muitos, que a união pela vida civilizada começa na família e se consolida nos bancos escolares mesmo que sejam virtuais: a proximidade maior das famílias do processo conferiu uma dimensão mais realista das dificuldades enfrentadas por todos os atores da aprendizagem, demonstrou que, sem uma ação conjunta e coesa, as mazelas que ora comprometem a educação farão com que a mesma se torne no gargalo que estrangulará qualquer perspectiva promissora de superação das crises.

Por isso tudo, continuaremos a investir, antes tudo e tudo, na simbiose escola-famílias!

(Blog Estadão de 19 de março de 2021)

Conhecimento e cultura: conceitos essenciais para educar

Professor Henrique Vailati Neto

Durante muito e insuportável tempo reduziu-se a educação a um alucinante martelar de informações: provas, vestibulares e avaliações eram meras verificações mnemônicas de um conhecimento estéril e insosso e, tantas vezes, inútil.

Mesmo que, ainda, parte da educação se perca nesse descaminho anacrônico, a busca de educar para a aquisição de ferramentas criativas e de encaminhar os conteúdos para a criação de conhecimento pertinente se patenteia como o caminho desse enorme desafio que é educar.

Mais uma vez, retornamos ao tema e, novamente, instigados pelo brilhantismo de nosso colega o filósofo Luiz Felipe Pondé que, em sua de suas colunas aborda as mazelas do conhecimento inconsequente.

Se a construção de uma cultura individual depende, evidentemente, do repertório de conhecimentos acumulados, o exercício para que esses conhecimentos sejam elaborados, refletidos e incorporados em um todo coerente e único é tarefa cuidadosa e demorada: o grande risco, é o educador se deixar levar pela “pulsão didática do cumprimento do programa”...

Se o cumprir programas (quase sempre de uma extensão “maratônica”) foi uma derivação da necessidade gerada pela demanda de assentos universitários e da escassez dos mesmos que desaguou no “monstro vestibular” fazendo com que “colégios fortes” eram aqueles que cobriam milhares de páginas e de exercícios...

Em minha passagem pela universidade, tive felicidade de ter sido aluno do professor Dr. Joel Martins, uma das mais respeitadas vozes da pedagogia brasileira que, em uma de suas preleções, tratou desse norte pedagógico contemporâneo que é a interdisciplinaridade: dizia ele que,por mais que devamos perseguir o embricamento dos conteúdos, existe um limite estabelecido pela própria delimitação da lógica das ciências e a síntese final, meta desejável, será elaborada pelo educando ante as demandas da vida .

Assim, tanto como fornecer um elenco de informações consistente e essencial e de qualidade, cabe ao educador incentivar e tutelar a reflexão que conduz a síntese do conhecimento que elaborará a cultura do indivíduo: como todo o processo formativo, é uma marcha lenta, repleta de percalços, recuos e hesitações, mas cujo resultado final é a própria meta da educação.

Concluindo, mas vale desprezar parte dos conteúdos programáticos e ajudar os alunos a formarem, com sacrifício inerente à aquisição das coisas de valor, do que sufocá-lo num oceano de informações insossas que serão descartadas pela vida.

(Blog Estadão de 26 de março de 2021)

A falta de educação on line

Professor Henrique Vailati Neto

Em qualquer nível da educação formal preparar para a vida em sociedade é uma obrigação inalienável: não basta estarmos bem informados, não é suficiente termos um cabedal técnico eficaz, saber viver em sociedade, ter percepção e sensibilidade dos outros é requisito de êxito pessoal e da própria sobrevivência da espécie.

Num contexto em que o trabalho em equipe é pré-condição do produzir, comportamentos antissociais e o que chamaram (adequadamente) halitose comportamental não têm como não serem trabalhados e anulados na educação.

Não estamos nos referindo àquela saudosa maneira cavalheiresca de nossos pais que, jamais, seriam capazes da grosseria de não ceder lugar a um idoso, falamos de urbanidade, um conjunto de atitudes para o convívio socialmente civilizado e, sobretudo, nestes tempos, suportável: no contexto agudizado vivido, onde a empatia está associada à sobrevivência, “espinhos” no trato ganham dimensões inusitadas.

Em respeito ao espaço e à inteligência de algum leitor que se digne a nos ler, não faço menção à barbárie daqueles que buzinam freneticamente para liberar meio metro de asfalto, muito menos dos que trafegam com o som em tal volume como se fossem arautos de um apocalipse do mau gosto: quero tratar de uma nova modalidade, a má educação on line.

Como todo o ser de essência analógica fui, cautelosamente, me introduzindo nas novas formas de comunicação: sem muito esforço aceitei as “novidades” no massacrar o pátrio idioma, já que as línguas são entidade vivas. No entanto, fui sendo incomodado um por um imperceptível mal estar nas comunicações a distância que, mais do que ruídos, demostraram novas modalidades de grosseria...

Exemplifico. Em encontros pelo zoom, maravilhosa ferramenta de superação do distanciamento social, é profundamente incômodo, senão ofensivo, encontrar pessoas com suas câmeras fechadas: se, numa situação presencial, ou em uma aula, alguém abrisse um jornal, ou se recostasse para um cochilo, ficaríamos verdadeiramente ofendidos, sucedâneo indiscutível das câmeras desligadas...

Microfones abertos gerando intromissões sonoras, ou cenários inadequados revelam a falta de sensibilidade na diferenciação entre o público e o privado e que poderia ser resumida naquela velha e eloquente frase da antiga pedagogia: “você pensa que está em sua casa?”

Não tenho dúvidas de que, projetados na menor identidade social do mundo digital a pouca sensibilidade das relações se amplificam gerando uma nova cultura da descortesia: pode ser implicância senil, mas me incomoda muito, após escrever uma cuidadosa mensagem para alguém, receber como resposta (no desdém de um clique), uma minúscula imagem. Isso para não falarmos das arenas digitais onde os recalques enfurecidos da irracionalidade encenam tragicomédias de boçalidade inigualável.

Um universo de pequenas e indelicadas posturas vem povoando o “modo virtual de vida” e acrescentando, sutilmente, atitudes que reforçam adesconstrução da essência mesma da urbanidade esse condimento social que dá sabor à vida!

(Blog Estadão de 03 de abril de 2021)

A pedagogia do imponderável

Professor Henrique Vailati Neto

Em várias de nossas publicações nos debruçamos sobre tema da segurança que devemos ajudar nossos alunos construir para a sua autossuficiência enquanto um dos objetivos essenciais da educação em qualquer nível.

Em meio à turbulência inusitada de nossos dias, onde quase tudo o que era previsível se liquefez, onde, a cada dia, países tidos como sedes do planejamento e da modernidade se fragilizaram ante o poder dos fatos, é imprescindível que o educador coloque a insegurança como o novo foco da educação permeando os conteúdos tradicionais.

A escola moderna sempre se preocupou em enquadrar seus programas na moldura da realidade de cada aluno, no entanto, quando o próprio educador se vê engolfado na imponderabilidade de uma realidade que, repentinamente, subverteu a todas as perspectivas plausíveis, é preciso que a própria educação se revisite: fico extremamente preocupado como, em meio ao caos (quase um eufemismo ante o que presenciamos), tentemos manter nossos projetos em padrões divorciados desse “cruel mundo novo” como se a escola fosse uma bolha intocável.

Evidente que não se trata, aqui, de abrirmos mão daqueles pensados e consagrados objetivos educacionais que as escolas sérias estabeleceram, falo de uma emergencial imposição de acertarmos o tom e o andamento de nossos discursos para atendermos a incerteza que, insidiosamente, se estabeleceu em todos : não há o que discutir que o pavor que nos abate, as incertezas de cada hora que fazem com que os mais velhos curvem os ombros desanimados, comecem a se estabelecer na sensibilidade dos mais jovens e menos conscientes.

Quando se fala no ”novo normal” se esquece de que o que vivemos, antes de mais nada, é o anormal”, aquilo que fugiu ao pensado, sobretudo, uma anormalidade que desnudou tudo o que as instituições tinham de frágil, revelando a nudez do rei...

Aqueles que possam interpretar estas ponderações como exercício retórico para cumprimento de uma obrigação, ou enquanto insensatez de um velho professor, que abram as janelas para o mundo e tirem as vendas da alienação! Percebam a agonia dos verdadeiros luminares pensantes em todos os limites das ciências! Afastem-se dos profetas do imediatismo que se agarram a uma pretérita quimera!

Quando quase tudo se obscureceu, obriga-se ao educador conduzir o educando a aprender a enxergar na escuridão a esperança que nasce na segurança dos princípios humanitários que nos fizeram sobreviver e superar as grandes agonias civilizatórias.

O que vivemos é uma dessas encruzilhadas da história que, com gigantescos sacrifícios, estabelecerá categorias humanas, aqueles que aprenderam com a dor e souberam construir o novo tempo e os outros que, apegados ao antigo, foram apagados pela História: nos cabe escolher em qual dos grupos queremos os nossos jovens...

(Blog Estadão de 09 de abril de 2021)

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