Blog do Colégio

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Paternidade e paternalismo: um fio de navalha para o educador

Professor Henrique Vailati Neto

Para nós educadores existem concepções de limites muito tênues, cuja confusão das linhas demarcatórias pode ser de consequências danosas, este é o caso dos conceitos em epígrafe.

Tomemos o conceito de paternidade em seu sentido mais amplo, ou seja, a responsabilidade que alguém assume por outro ser humano de provedor, protetor, formador, mesmo não o tendo gerado. A sacralidade desse sentimento, entranhada em nossa humanidade, é capaz de extremos de altruísmo ou de egoísmo num espectro inimaginável e que, extrapolando sua essência, provoca distorções perigosas.

Gerar, amparar e libertar a cria para que ela possa viver uma felicidade autônoma se apresenta hoje, cada vez mais, como um dos grandes desafios do educador: insegurança, incertezas, vazio de valores e de referências éticas nos levam a exageros ou omissões constantes.

O risco paternalista, enquanto degradação perniciosa da paternidade, nos empurra para o medo de deixar nossos filhos caírem no erro, nos leva ao equívoco maior de não lhes permitir aprender com o erro e com o risco.

O que nos trouxe a essas singelas e um tanto óbvias reflexões foi o balanço final da Semana do Colégio FAAP: dado um amplo roteiro de atividades esportivas e culturais, liberar nossos alunos para construir esse complexo evento, sempre nos suscitou expectativas. No entanto, mais uma vez, fomos agradavelmente surpreendidos pelo desempenho, criatividade, espírito de cooperação e cidadania que, apesar da acirrada competição permeou o tomou conta do evento.

Talvez como consequência do absenteísmo crescente dos pais, constata-se uma onda crescente de paternalismo nas famílias que tem infantilizado toda uma geração nos estratos sociais mais elevados: ou por excesso de zelo, ou por crise de consciência, as famílias criam ambientes sufocantes de uma artificialidade perigosa.

Nossa experiência nos mostra que recebendo uma base moral sólida na infância fundamentada no exemplo, só o ar rarefeito da liberdade assistida será capaz de afastar nossos jovens dos males, quase epidêmicos que assolam nossa civilização: todo o resto será esforço inócuo, tardio, mas do qual não podemos, jamais, abrir mão, pois uma vida é toda a humanidade!

(Blog Estadão de 27 de abril de 2018)

A cultura da performance: um dos aspectos do suicídio juvenil?

Professor Henrique Vailati Neto

Se o ato de se matar é a confissão de que se foi ultrapassado pela vida, mais e mais, o suicídio juvenil é um ensaio final para o absurdo: vidas em seu nascedouro, repletas de força e esperanças não poderiam chegar a esse término inaceitável!

Em nosso último blog falamos daquela que seria uma forma de enfrentamento desse terrível evento que, insisto, se carece de estatísticas que nos mostrem suas reais dimensões, jamais pode ser menosprezado, pois fere, na alma, tudo o que há de mais precioso em uma sociedade, seus jovens e o que representam.

O que nos obriga a retornar a este tema é a questão da espetacularização do suicídio enquanto um reflexo mesmo da cultura contemporânea e que, de alguma forma, pode lançar um pouco de luz nessa escuridão da razão.

Se a "era do Espetáculo", conforme Gilles Lipovetsky definiu nosso tempo, explicaria todo um conjunto de atitudes, o conceito de performance, enquanto a hipertrofia individual do espetáculo, nos permite entender melhor este tempo em que se vive para os outros.

Citando Paula Sibila ( "Autenticidade e peformance : a construção de si como personagem visível",Revista Fronteiras – 2015): "a era da performance, por se tratar de um momento histórico que registra pressões inéditas sobre os corpos e as subjetividades, instando-os  a que melhorem constantemente seu desempenho nos domínios mais diversos.""Na vida cotidiana. Performar é ser exibido ao extremo, sublinhando uma ação para aqueles que a assistem."

Qualquer análise epidérmica revela a exatidão das reflexões apontadas no parágrafo anterior e, esse viver intensamente para os outros nos remete a outras questões que envolvem mais uma dificuldade do jovem existir em nossos dias: como fica a existência de um adolescente tímido, com todas as dificuldades comuns à essa fase, tendo a obrigação de aparecer na massa sufocante? Como aparecer e brilhar com tanta concorrência?

Diante de comportamentos que buscam a exposição constante da vida privada, o cotidiano de um jovem introvertido, sem nenhuma vocação artística ou esportiva, seguramente, o coloca na pior posição da hierarquia humana, a de perdedor. Para esse perfil de jovem, transformar a própria morte numa performance, não seria um clímax ideal para a consagração de uma vida obscura e frustrante?

Evidentemente tal hipótese é antiga, mas dentro desse indiscutível contexto em que viver tem que ser espetacular, ela precisa ser mais refletida e, nós educadores devemos detectar comportamentos reclusos e buscar, de todas as formas, oferecer a esses jovens oportunidades de expressão que recuperem sua autoestima, que lhes deem uma vitrine para a vida e não um  caminho para a morte.

(Blog Estadão de 11 de maio de 2018)

Uma página do inaceitável: o suicídio de jovens

Professor Henrique Vailati Neto

Das páginas do noticiário, uma terrível notícia invadiu as mídias sociais provocando um verdadeiro surto de pânico nas escolas: uma sequência de suicídios de jovens.

Eventos trágicos como esses que, lamentavelmente, acontecem, ganham, hoje, uma dimensão espetacular no gigantismo e na velocidade das mídias digitais conferindo-lhes um potencial deletério muito maior.

Quando tomamos conhecimento das reações de nossos alunos e, conhecedores de como tais tragédias repercutem nos jovens, intensificamos aquela que, a nosso ver, é a única profilaxia para patologias sociais como essa: a convivência e o diálogo ininterruptos e atentos com a comunidade escolar, rastreando, em seu nascedouro, quaisquer desvios, quaisquer sinais e anomalias.

Nesse sentido, remetemos a um texto de Camus, "O mito de Sísifo", no qual ele trata do suicídio pelo ângulo que nos interessa, diz ele: "... é um gesto que se prepara em silêncio, no coração, da mesma forma que uma obra prima. O próprio homem o ignora."

Ou seja, é o desfecho de um processo, não é, geralmente, um ato único, é passível de percepção por um observador mais atento, avisos e sinais são emitidos. Nas escolas em que a orientação educacional trabalha em estreita colaboração com o corpo docente, quaisquer desvios de conduta são percebidos e, na maioria dos casos, situações mais agudas são evitadas. A profilaxia desses nefastos eventos é homeopática, ações pontuais, quase sempre, são tardias e acabam por serem, tão somente, terapias do luto.

Na medida em que a escola assumiu parte das responsabilidades da família, o trabalho de acompanhamento do educando superou, de muito, a supervisão do desempenho intelectual para assumir sua essência a de acompanhar o seu crescimento integral. Todo o restante é a permanência de um modelo educacional superado e arriscado, pois calcado nas falácias do ensino de massa travestido de sério. É evitar responsabilidades que, se não constam no contrato de prestação de serviços com a escola, são obrigações inalienáveis do educador.

(Blog Estadão de 6 de maio de 2018)

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