Blog do Colégio

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Só a ausência demonstra a real importância das coisas

Professor Henrique Vailati Neto

Antes de ser taxado como profeta do óbvio, peço algumas linhas de paciência.
Só nos damos conta de como coisas e pessoas são importantes com a suas ausências, assim, muitas coisas consensualmente desprezadas ganha novas cores: o sufoco de multidões se espremendo em lojas, o alarido de crianças nos quintais dos prédios, a invasão dos odores dos churrascos da vizinhança e outros tantos fatos que nos incomodavam.

Na vida escolar, mesmo incluindo personagens centrais como estudantes, famílias e professores, as formaturas sempre têm sido um divisor de sentimentos: quantas não foram as vezes que ouvimos as frases, “ essas coisas chatas não têm mais sentido!”; é sempre a mesma coisa cheia de discursos vazios e repetidos e, às vezes, algumas baixarias que divertem os convidados e envergonham os anfitriões...

No caso do Colégio FAAP, as críticas que sempre antecederam tais eventos foram substituídas por manifestações de gratidão: despojando nossas formaturas de formalismos anacrônicos, sempre as organizamos como o derradeiro encontro de quem se gosta junto, como uma liturgia de gratidão e amizade envolta em dignidade. Um rito de passagem sem anacronismos, mas com a intensidade assinala os grandes momentos da vida.

Adiar esse derradeiro encontro tem o amargo sabor das coisas incompletas, deixa o a sensação frustrante de que a tarefa não mais não poderá ser retomada e de que de fato, o tempo, impiedoso marcador da vida, não admite retornos.

Mesmo reprogramando as datas de nossa formatura, sabemos das dificuldades previstas e de como a vida nos conduz para caminhos, quase sempre, divergentes, assim, aproveitamos este espaço para levar aos nossos formandos a certeza de que nunca haverão portas fechadas em seu Colégio, de que suas classes jamais se esvaziarão de suas queridas presenças, de que suas vitórias serão as nossas recompensas e de que eventuais derrotas não os encontrarão sozinhos. Que Deus os acompanhe com a nossa gratidão de ter podido vê-los crescer e ter sido sua companhia num trecho desse lindo caminho!

Até sempre queridas alunas, queridos alunos!

(Blog Estadão de 18 de dezembro de 2020)

Os conselhos de classe: indicadores e termômetros dos princípios pedagógicos

Professor Henrique Vailati Neto

A coerência entre princípios formalmente declarados e as práticas, em todas as organizações, é um dos mais fidedignos indicadores de sua confiabilidade: todos os dias, constatamos fatos que demonstram, desabridamente, essas contradições, a ponto de ser a última moda administrativa o setor de compliance; ou seja, uma fiscalização de princípios de deveriam ordenar a cultura da organização, serem a norma e, assim, anularem desvios.

Nas instituições de ensino, onde a coerência é fator vital da educação, a sintonia entre o que é declarado nos princípios contidos no planejamento pedagógico e, sobretudo, divulgados, determina a seriedade do projeto de modo mais contundente.

Nunca é demais repetir que a cultura real de uma escola começa a se revelar na portaria perpassando cada segmento, cada indivíduo e todas as atitudes cotidianas: enquanto pai, avô e, inúmeras vezes, conselheiro, visitei escolas e fiquei chocado pelas contradições entre as imagens veiculadas e a realidade encontrada; escolas ditas democráticas  e criativas com disciplina autoritária e castradora, instituições “preparatórias para o futuro” engessadas por apostilas anacrônicas...

Em tempos de avaliação das escolas de nossos filhos ou de escolha de novas, estas reflexões podem ser de alguma valia.

Fico sempre mais orgulhoso de nosso Colégio quando participo dos nossos Conselhos de classe: constato a coerência de um projeto pedagógico ancorado no conhecimento individualizado do aluno, no acompanhamento de seu crescimento, na justeza dos critérios de avaliação e, sobretudo, na real, constante e verdadeira preocupação com o crescimento do educando.

Se, por razões obvias, as famílias não têm acesso a essa reuniões, os resultados delas demonstram a natureza das mesmas onde a aprovação não é mero resultado frio de elucubrações aritméticas anônimas, onde cada indivíduo é único e onde um aluno que se recuperou e cresceu emociona os professores.

Tais resultados só se consegue com uma equipe afinada, unida e consciente dos objetivos da escola: dissonâncias, desencontros e contradições são amplificadas nos alunos e geram severos comprometimentos no processo educacional.

Avaliar uma instituição educacional é tão vital quanto escolher o médico de família sendo que, a primeira escolha, se equivocada, não apresentará efeitos imediatos que possam ser minimizados, mas que comprometerão vidas da mesma forma.

(Blog Estadão de 11 de dezembro de 2020)

Vestibulares, escolhas, angústias e tropeços

Professor Henrique Vailati Neto

Em educação persiste uma sazonalidade recorrente, mas inadiável: com a proximidade dos grandes vestibulares milhares de jovens são defrontados com escolhas para as quais, muitas vezes, não foram preparados convenientemente.

No Colégio FAAP, como objetivo pedagógico, cuidamos, desde a primeira série do ensino médio, de dar suporte e orientação vocacional para que os nossos alunos possam encarar essa fase vital de suas vidas de forma consciente: trabalho extremamente delicado de orientação e apoio que só pode ser bem sucedido com o auxílio de variadas ferramentas e com o incondicional apoio das famílias.

Conscientizar os jovens das pressões externas, das fantasias de sucesso, enfim de todas as miragens que a mídia e as influências sociais subliminares exercem, é tarefa delicada e paciente pela contraposição de forças poderosas.

Desde a orientação para o autoconhecimento (pré-condição para qualquer escolha), passando pelo imenso espectro das tendências de mercado, até palestras dos coordenadores, professores e “experimentações” nos cursos superiores da FAAP, nossos alunos chegam ao final do Colégio com mais certezas do que dúvidas, situação oposta à maioria dos jovens.

Da mesma forma, fazer o vestibulando ter consciência de que a escolha da faculdade, deve ser orientada pela análise de um conjunto de varáveis, também não é tarefa simples: fazer com que o jovem perceba que cada instituição tem um projeto pedagógico específico a ser considerado pelas suas próprias aspirações, que tem uma cultura peculiar e que “movimentos de rebanho”, tão comuns entre os jovens, podem levá-lo a escolhas inadequadas.

Nunca esquecendo que os nossos vestibulandos, mais do que antes, apresentam menos maturidade, a escolha de uma profissão “para o resto da vida” é um passo mais sujeito a mais equívocos em nossos dias.
Da mesma forma, nunca é demasiado insistir de que o erro é uma das mais efetivas formas de aprender e, neste caso, o importante é dissociá-lo do fracasso: perceber que uma carreira é um projeto de vida, que tempo e dinheiro são importantes, mas não vitais, mas que buscar o seu próprio caminho pode ser procurar atalhos, reconsiderar escolhas, superar obstáculos e, sobretudo, decidir com autonomia.

Angústia, tensão e medo são sentimentos normais ante as grandes provações, mas não podem ser nem maiores do que a busca pela realização, nem meros compromissos sociais satisfeitos pela aprovação em qualquer vestibular.

(Blog Estadão de 04 de dezembro de 2020)

A difícil tarefa de ajudar a escolher e aprender a perder.

Professor Henrique Vailati Neto

Enquanto professor de História e Política, em períodos eleitorais, sobretudo, pelejei para mostrar aos alunos que escolhas sempre implicam em perdas e que estas, na democracia, são fatores essenciais na construção de uma cultura democrática enquanto única garantia de sobrevivência dessa tão desejada condição civilizatória.

Naqueles tempos mais amenos, incentivar os alunos a descobrirem os deveres e, sobretudo, o direito ao voto era um trabalho difícil, pois sempre enfrentamos uma descrença cultural pela vida política e, em todas as faixas estudantis, uma rejeição beirando muitas vezes, o asco.

Nestes tempos polarizados nos quais a lógica é, sistematicamente, atrofiada por paixões, um sentimento que sobrenada todas as esferas da vida se impõe de forma sorrateira, mas extremamente aguda, mais do que a ânsia desmedida de ganhar, o pavor de perder.

Lembro, mais uma vez, a ofensa que, “imigrando do norte” (e ganhando sotaques múltiplos) patenteia esse sintoma mórbido: loser”...

Se a disputa é um código genético do ser humano, a agressividade deveria ser um traço neutralizado pelo avanço da civilização, no entanto, o acirramento  de paixões irracionais aparece como desafio dos educadores: lapidar as consciências para que se deem conta de que a democracia é um sistema de contrapesos em busca constante do equilíbrio e que todas as experiências em contrário significaram as páginas mais negras da história se tornou, mais uma vez, emergencial.

Daí insistirmos de que a escola deva ser a construção perene da “cultura democrática”: espaço para o diálogo responsável; lugar de participação sem “assembleísmos” inócuos; piso para a gestação da iniciativa individual e autônoma de formação da cidadania; linha de produção de respeito às diferenças baseada na empatia e no convívio civilizado de antagonismos.

Na orientação para a construção de uma consciência democrática e, portanto, civilizada, aceitar e aprender com as perdas e derrotas é tarefa vital, é levar à consciência do educando que, muitas vezes, se aprende mais perdendo por escolhas equivocadas do que por vitórias e que, na vida, a variável sorte pode ser um acidente da imprevidência e da alienação.

 A prender a escolher é aceitar, por princípio, perder, coisa que as atuais gerações não conseguem se dar conta...

Trazer para o espaço pedagógico as eleições e conferir-lhe o caráter republicano, que é sua essência, é obrigação inalienável dos educadores que não pode ser limitada, impedida ou enviesada por pudores ou radicalismos ideológicos: evitar a discussão política é fugir à realidade, é pré-condição para a germinação de radicalismos que contaminam a própria essência do conhecimento enquanto base de todo o processo educacional.

Se fomos marcados, durante muito tempo, pelo receio a temas políticos, voltamos temê-los para evitar conflitos, atitude de avestruzes educacionais oferecendo o corpo de nossos alunos à sanha daqueles que buscam o conflito, que se valem do contraditório para ludibriar a inocência incauta, que semeiam a discórdia travestida de preventivo à “conspiração universal dos malvados”.

Em nosso Colégio sempre apoiamos os professores, mesmo aquelas áreas que, tradicionalmente não se atribui essa tarefa, de estarem, permanentemente, trazendo a realidade para o espaço pedagógico.

(Blog Estadão de 20 de novembro de 2020)

A alegria: fundamento da didática, princípio pedagógico essencial

Professor Henrique Vailati Neto

Nestes tempos excepcionais em que fomos obrigados a verdadeiras pirotecnias didáticas para compensar o distanciamento físico, dediquei-me à reflexão sobre tudo o que pratiquei, aprendi e observei na difícil e mutável arte de ensinar: todos nós começamos emulando aqueles que nos seduziram e levaram à profissão, mestres exemplares que marcaram nosso estilo. Seminários e leituras foram buscados pelo receio do anacronismo; abrimos mão, muitas vezes, de práticas consolidadas para retornar a elas buscando encontrar o melhor caminho nesse emaranhado de obstáculos e situações inusitadas.

Enfim, ensinar sempre será um gigantesco e muito delicado trabalho artesanal cuja mutabilidade e fragilidade da matéria-prima nos obrigam à máxima atenção sob pena de “estragá-la para sempre”: quantos seres humanos foram desestimulados (ou mesmo castrados) para certas áreas do conhecimento pela incompetência pedagógica de um professor?

Conseguindo colocar de lado todo um vasto ferramental de meios que iam do bem falar aos mais avançados recursos de TI, consegui chegar a um dos princípios essenciais e universais da pedagogia: a alegria no ensinar e no aprender, a criação da verdadeira atmosfera para a construção do saber pelo aluno.

Em um artigo, li uma frase lapidar de Nelson Rodrigues: “Se a tristeza deixa marcas profundas a alegria, muito mais”: os momentos alegres, diferentemente dos tristes, buscamos conservar como patrimônios de nossas memórias e, quando neles está inserido o conhecimento, obtemos a fórmula ideal para ensinar e aprender.

Lembro, com bastante dissabor, uma entrevista feita com o diretor de uma prestigiada escola onde o indigitado personagem afirmava que “seus professores não eram palhaços e que risadas não tinham espaço em seu colégio”; certamente tentava justificar a sisudez árida de uma escola, como muitas outras, que se queria “séria”, “puxada”, diferentemente “daquelas outras risonhas e francas”: era a essência de uma cultura retrógrada e contraproducente que acreditava que pessoas sérias deveriam ter siso, que a  alegria era coisa de irresponsáveis, que a linguagem da autoridade deveria ser de monossilábicos grunhidos, secundados por raros esgares de aprovação e que os “dentes do poder” não deveriam ser mostrados em sorrisos, quanto mais em risadas.

Terrível equívoco, provavelmente, provocado pela “ameaça da cultura dos cursinhos” cuja orientação didática (deixemos a pedagogia distante) obrigava  seus professores a verdadeiros malabarismos histriônicos para manter enormes plateias atentas nas maratonas dos vestibulares. A “maldição da escola risonha e franca” (algo altamente desejável), criou usinas de terror pedagógico que lograram produzir alguns sobreviventes exitosos, mas geraram legiões de recalcados.

Se a pedagogia se realiza numa cultura de cordialidade, a alegria é sua decorrência natural e desejável: da mesma forma que a cordialidade espontânea é um dos fundamentos essenciais da autoridade, a alegria (que em nada ameaça a disciplina), é o coroamento de estruturas organizacionais saudáveis e proativas; na rudeza do mercado, na aspereza da iniciação científica, ambientes leves predispõem ao enfrentamento dos desafios, facilitam o engajamento em ações coletivas como o mundo atual exige e a vida agradece.

Sei que não é simples, no cotidiano das aulas, manter esse clima de cordialidade e alegria sempre presente: a tarefa essencial nasce no desenho de um projeto educacional que contemple (na sua essência, em todos os momentos e lugares de sua existência), a construção de uma cultura cordial consciente e coerente que mostrará os seus frutos no perfil de seus alunos; não surgirá de ações isoladas fortuitas e, dessa forma, se estabelecerá como um princípio que, naturalmente contaminará toda a instituição.

(Blog Estadão de 13 de novembro de 2020)

A escola inclusiva revelando projetos pedagógicos

Professor Henrique Vailati Neto

O atendimento a estudantes com necessidades especiais é, efetivamente, um revelador da essência pedagógica dos projetos escolares na medida em que desnuda objetivos normalmente difusos ou não contemplados: se a missão de uma instituição educacional, em qualquer nível, é oferecer a todos educação, não pressupor as condições necessárias para tanto é, no mínimo, imprevidência e, no máximo, hipocrisia; ao procurar uma instituição de ensino, é direito essencial de quem o faz ter conhecimento do seu projeto pedagógico na íntegra o que, nem sempre, está contemplado em importantes detalhes.

É evidente que, nos extremos de patologias ou deficiências, a necessidade de escolas especiais se impõe, mas existe um largo espectro de necessidades especiais que escolas bem geridas podem e têm o dever de atender uma vez que, o convívio com diferenças é, o num espaço de normalidade educacional, a mais efetiva terapia para a maior parte dos problemas dos seres humanos e pressuposto para a tão decantada (e erroneamente abordada) “formação integral”.

Selecionar no ingresso (eufemismo para segregar) pode ser, inconscientemente, uma ação de eugenia educacional: não misturar “os diferentes” com “os normais” como se tivéssemos (apesar de muitos diagnósticos médicos inconsequentes), condições de medir as reais necessidades e potencialidades dos seres humanos. Quantas vezes estudantes estigmatizados não revelaram potencialidades surpreendentes calando (tardiamente) diagnósticos castradores e desafiando protocolos imprecisos?

Da mesma forma, a convivência com as “diversidades não institucionais” (diferentes daquelas evidentes e midiáticas) é fundamental na formação integral do indivíduo enquanto via efetiva da criação do respeito humano, da solidariedade e do convívio civilizado, condições mesmas de sobrevivência humana: isolar o educando das muitas realidades da vida é privá-lo de um aspecto essencial de sua formação, é transformá-lo num ser diminuído e míope criado para ficções róseas; será desprepará-lo para o mundo real no qual, muito menos do que um nobre compromisso humano, o respeito à diversidade é uma obrigação legal.

No Colégio FAAP, em seus trinta anos de existência, incontáveis vezes recebemos “alunos trânsfugas de escolas normais” que, superando o receio inicial, se socializaram e tiveram uma vida escolar feliz e com aproveitamento escolar: no entanto, o receio das famílias que, não conhecendo nossa cultura, trazem alunos com necessidades especiais, faz com que, inúmeras vezes, omitam problemas que, conhecidos, facilitariam nosso trabalho de integração.

A inclusão, é um termo que designa, muitas vezes, uma especificidade pejorativa: quando um aluno chega num ambiente novo, o processo de inclusão nessa nova cultura é pré-condição indispensável para o êxito do processo, incluir é o dever de criar condições para que o educando se sinta acolhido, se sinta parte e um novo grupo social que deseja sua  presença, assim, a inclusão é, sempre, um noviciado para todos.

Evidentemente que, nas instituições massificantes, tal trabalho individualizado cuidadoso e constante não encontra espaço, fazendo com que alunos especiais sejam colocados, quando aceitos, em “segregação não declarada”; o mesmo acontece com escolas menores que não possuem um projeto estruturado e consciente de formação de uma cultura de convívio harmônico.

Longe de pensar que somos um colégio especializado, somos uma escola essencialmente voltada à formação integral do educando o que, como já dissemos, que se  fundamenta no convívio cordial e urbanizado: desde a primeira entrevista, percorrendo todos os espaços e integrantes de nossa equipe, a manutenção dessa cordialidade (condição sempre desafiadora de ser mantida), nos tem permitido receber a diversidade com a segurança de que poderemos, na grande maioria dos casos, formar gente especial como todos os alunos.

(Blog Estadão de 06 de novembro de 2020)

Eleições, cidadania e escola

Professor Henrique Vailati Neto

Em véspera de eleições surpreende o número de jovens que, tendo o direito de votar (mas não a obrigação), manifestam vontade de não o fazer: a descrença no jogo político e, principalmente, nas instituições é um sintoma grave que compromete a democracia, delicada e preciosa conquista humana cujo valor só se percebe em sua ausência...

As bases de todos os fundamentos institucionais são lançadas na família e na escola e a ausência dessa ação compromete todo o restante do processo de formação da cidadania: esperar que a vida adulta faça o indivíduo despertar para a consciência cidadã e participativa, é acreditar em um processo antinatural, é tentar um começo numa fase de maturação e que tem como resultado a inexistência de uma cultura política que faz com que sociedades caminhem à beira dos abismos autoritários que tão elevados preços cobraram à civilização.

As relações do educando com a autoridade e o poder legítimos são o trabalho de uma muito delicada carpintaria que pode ser comprometida, ou mesmo estilhaçada, por erros palmares: se a criança e os jovens necessitam da segurança da autoridade, da mesma forma, necessitam que essa autoridade se fundamente no reconhecimento de posturas coerentes e, acima de tudo, num diálogo que não apequene seus interlocutores, que dê espaço e ouvidos para as dificuldades, limitações e contradições próprias do crescimento.

Com o diálogo sempre aberto como espaço de construção da participação, o surgimento da confiança que leva à integração e à harmonia nas atividades diárias familiares ou escolares, permite que choques, ruídos e conflitos sejam atenuados, superados, demonstrando o valor de uma vida participativa e responsável: a aridez dessas condições (situação comum na “escola tradicional” que acreditava que  a disciplina ideal era postura de servilismo burro), além de um resquício jurássico (inadmissível em nossos dias), criou gerações de cidadãos castrados para a vida em sociedades igualitárias e propensos a posturas de um radicalismo polarizante.

Mais do que trabalhar o conhecimento da dinâmica e estruturas das diversas instituições políticas, nosso Colégio se baseia na construção de uma cultura democrática pela essência mesma de suas posturas o que, em nada, implica em atitudes libertárias ou em um ambiente de permissividade, já que a construção mesma do conhecimento se assenta na disciplina consciente de estudo: em todos os muitos de anos de estudo e vivência da educação no Brasil, inúmeras vezes constatei a existência do “binômio preconceituoso e polarizado”, colégio forte e disciplinador X colégio leniente e anárquico imagens que se consolidaram no imaginário educacional e, conflitantes, perpetuam anacronismos inaceitáveis no processo civilizatório. 

Nem assembleísmo anárquico, nem verticalismo tirânico são terrenos para o educar para a cidadania!

A participação política consciente depende do conhecimento das instituições apresentadas de forma imparcial e realista e, desse conhecimento, deriva a construção de uma cultura democrática única forma de frutificação de instituições participativas, igualitárias e da própria sobrevivência da civilização, tarefas que, como insistimos, nascem ou morrem na família e na escola!

(Blog Estadão de 30 de outubro de 2020)

Educar para vencer e perder

Professor Henrique Vailati Neto

Como pais vocacionados que nós professores somos, marcamos nossa jornada pelos triunfos e percalços de nossos alunos e poucas coisas nos machucam tanto quanto ouvir que um deles “não deu certo”, eufemismo ácido que esconde o fracasso.

Não é a primeira vez que aqui venho falar desse estigma cultural que, em inglês, parece mais danoso e se exprime pela palavra loser, uma ofensa que traz em seu conteúdo a síntese de uma civilização cruelmente bipolarizada, cujas referências para a vitória são absolutamente falaciosas estreitando, ou quase extinguindo, o caminho para a felicidade genuína.

O que é “não dar certo na vida”?

Quais são as referências éticas e existenciais a se considerar para afirmar que uma vida foi em vão ou exitosa?

Vincular a felicidade a valores transitórios e materiais que jogam legiões de infelizes numa carreira suicida de perseguição ao inalcançável para manter “engrenagens azeitadas”, já se revelou o grande equívoco: não será essa a via pela qual os muitos “ismos” sobreviverão, pulsa nos jovens um anseio muito forte de romper esses horizontes míopes, um novo universo de valores se entrevê nas trincas de estruturas periclitantes.

Educar para a conquista da felicidade é a missão indeclinável da educação: nada mais triste do que contemplar multidões de “vencedores” infelizes ostentando com tristeza currículos de sucesso social e de fracassos pessoais; está terminando a era em que a vitória se media pela quantidade de carros zero que uma pessoa possuiu; jovens renascidos não querem dirigir que se voltam para a construção de projetos que, muitas vezes, recebem o sarcasmo social.
Assistimos pais e educadores preparando guerreiros para lutas que não são deles, que não puderam escolher, ou mesmo tinham consciência de por que e para quem lutavam.

A escola deve ter um papel libertador, não libertário, pois consequente e responsável. É muito desolador ver nossos jovens, ao terminarem o ensino médio, serem “doutrinados para a luta pelo mercado”: seres humanos felizes com o que na vida, realmente, escolheram, jamais temerão vicissitudes momentâneas, não terão concorrência fatal, pois recriarão seus projetos sem abrir mão de seus ideais.

 Neutralizar pressões externas pela via da conscientização do contexto social do aluno é o núcleo vital trabalho de orientação vocacional, ou seja, ajudar o educando a se descobrir parcela de um todo muito mais amplo, complexo e poderoso para, olhando esse todo com uma visão mais lúcida e critica fazer suas escolhas.

Nos cabe instrumentalizar o educando para se descobrir, para ter as ferramentas necessárias para fazer o seu próprio caminho, para ser imunizado de pressões externas que valorizam os troféus de plástico dourado, honrarias escritas em pergaminho falso. Apoiar as descobertas da vida, incentivar projetos mesmo que aparentemente inalcançáveis, reunir e disponibilizar o conhecimento pertinente e, sobretudo, as competências para a realização pessoal de cada educando é a missão indiscutível da escola.

Na luta por um ideal, conscientemente abraçado, cada percalço será uma vitória e não existirá “quem não deu certo”!

(Blog Estadão de 23 de outubro de 2020)

Na formação do caráter a iniciativa cabe aos educadores

Professor Henrique Vailati Neto

Contemplando o comportamento humano tão eivado de desvios éticos, desanimada pela falta de caráter que assume proporções estruturais, uma amiga educadora fez a pergunta clássica: “onde erramos?”

Na maioria dos casos, deixamos de insistir, deixamos de acreditar que tudo começa e termina na educação, abrimos nossas defesas a dúvidas que fazem com que diminuamos a intensidade do combate: quando os piores exemplos vêm daqueles de maior exposição, na “forja dos caráteres” da educação não se pode baixar a temperatura!

Buscando na memória aqueles educadores que nos deixaram marcas da boa educação surgiu a lembrança do reitor do Colégio de São Bento D. Rafael Ribenhop que, enquanto aluno, me ensinou o valor da confiabilidade: em qualquer acontecimento que dependesse do seu juízo esse memorável reitor começava a entrevista perguntando, “ o que aconteceu”. Seria de uma obviedade absoluta tal abordagem não fosse o sentido profundo de confiança na veracidade da resposta nela manifestado; tal era a confiança no aluno que aquele educador depositava que, mentir para ele, era perder um patrimônio inestimável que não nos arriscávamos mesmo que não tivéssemos consciência disso, era honroso encarar punições com honestidade.

Por muitos anos, como professor e diretor, lutei comigo mesmo e com meus colegas pela confiança a priori enquanto um investimento que só se usufrui se antecipadamente depositado: a desconfiança como fator inicial de qualquer relação gera uma verdadeira linha de produção da mentira enquanto atitude natural de reciprocidade e defesa do ser humano.

Fazer com que o educando receba, desde sempre, a confiança do educador, é aquele reconstruir a segurança da palavra ora em estado de falência, ou em segura inanição:  analisando os grandes embates políticos de nossos dias, contemplando com rigor os ruídos de comunicação e as áreas mais constantes de atrito no relacionamento humano, a desconfiança surge como uma moléstia endêmica...
São pequenos gestos no cotidiano de uma criança ou jovem que vão construir o seu caráter e que, nós educadores, jamais podemos descuidar: na sensibilidade aguçada deles, pequenos deslizes podem ter efeitos profundos e duradouros, bem como pequenos incentivos podem ter dimensão inusitada e perene.

Muitas são as tarefas que se constrói no diminuto espaço das pequenas ações e que são pedras angulares na arquitetura de um ser humano.

Desconstruir uma civilização que se fundamenta nas minúcias e falácias jurídicas de contratos, que se assegura no “rigor negociável” dos meandros legais, pode ser titânico desafio, mas agora, mais do que nunca, sentimos os jovens manifestar essa esperança em contraponto ao ceticismo dos mais velhos não importando sua idade...

(Blog Estadão de 02 de outubro de 2020)

Cidadania também se aprende na escola

Professor Henrique Vailati Neto

Enclausurados, os cidadãos responsáveis sentiram suas vidas reduzidas às redes sociais e de suas janelas midiáticas surgiu uma mal digerida limitação: diminuição drástica e dolorida do tão vital calor humano e das possibilidades de revertê-lo em ajuda ao próximo e que, no caso dos jovens, é oxigênio da vida.

Em parcelas da sociedade, essa rarefação humana se faz sentir mais aguda, se manifesta como um sentimento insuportável de impotência: são pessoas que dedicam parte de seu tempo aos menos favorecidos, aquelas nas quais a cidadania se exprime em sua mais profunda manifestação, a empatia solidária, a assistência aos menos favorecidos.

Quando se constata que um dos mais agressivos vetores da pandemia é a ausência da cidadania que faz com que campanhas solidárias se percam no inexplicável egoísmo de alguns alienados que colocam suas alucinações de felicidade egoísta acima do bem comum, a consciência cidadã se torna num bem inestimável: é um poderoso motivo para que as escolas invistam e insistam na construção dessa raiz da civilização.

O Colégio FAAP mantém, em parceria com o FAAP Social, um núcleo voluntário filantrópico que, atrofiado pelo desencadear da pandemia, permaneceu vivo na vontade e na sensibilidade social de seus atores. Renascendo a uma primeira e discreta convocação de seu coordenador o Professor Atílio Monteiro Filho e, imediatamente, apoiado pela gerente do FAAP Social Andrea Sendulsky  e sua assistente Bianca Rossetti Fontana, revelou que as “sementes cidadãs” hibernam, mas  sobrevivem.

Em uma primeira reunião, as dezenas de alunos presentes on line deixaram evidente que as restrições do momento não seriam empecilhos pera que eles pudessem retomar as ações de apoio às diversas entidades assistências que a FAAP apoia: ideias nasceram contornando com criatividade as limitações numa linda demonstração do fato de, para quem quer, limites são motivações.

Não temo em afirmar que, de todos os princípios éticos que a escola deve trabalhar, a cidadania despida de ideologias alienantes, é a pedra angular que permite a construção de sociedades igualitárias e justas, enfim, a sobrevivência da própria humanidade.

(Blog Estadão de 25 de setembro de 2020)

Brasília, Washington e Pequim: um passeio internacional de estudos na pandemia

Professor Henrique Vailati Neto

Conforme abordamos em um de nossos blogs, um dos mais graves problemas que enfrentamos é a ignorância pelo excesso de informação nesta Era do Conhecimento e das distorções dos fatos: razão pela qual sempre buscamos, no Colégio FAAP, formar cidadãos conscientes.

 Com tal escopo e para consolidar tal objetivo, criamos a disciplina de Painéis de Realidade que polariza um amplo e rico trabalho interdisciplinar: sob a coordenação dos professores Maria Lúcia Esteves Sampaio Garcez Santos, Atílio Monteiro Júnior e Fernando Limongelli Gurgueira, foi elaborado um trabalho para a totalidade dos nossos alunos envolvendo as disciplinas de Painéis de Realidade, Geografia, Sociologia, História e Filosofia com o tema “As relações Brasil Estados Unidos e China” que se orientará para o âmago vital das relações internacionais que contextualizam o Brasil.

No sentido de darmos maior abrangência e profundidade às abordagens, contamos com a parceria do Curso de Relações Internacionais da FAAP através de sua coordenadora a Professora Dra. Fernanda Magnotta: tal parceria permite uma amplitude acadêmica das análises bem como a acentuação da abordagem científica da realidade já implantada pelos nossos professores.

No último dia 11, tivemos a palestra do Professor Carlos Gustavo Poggio do Curso de Relações Internacionais da FAAP que, com raro brilhantismo e sensibilidade, pedagógica traçou, para todo o Colégio e inúmeros convidados, a composição medular das relações entre as duas grandes potências Estados Unidas e China, em  seus desdobramentos na história recente e as probabilidades que a atual diplomacia brasileira poderá enfrentar mantida a atual política: interesse grande de nossos alunos se revelou pela maciça audiência e pela quantidade e pertinência das questões apresentadas ao palestrante.

Mais do que a nossa gratidão ao Professor Poggio, vem aqui a nossa admiração pela sensibilidade didática e profundidade de conhecimento que explica, também, a inigualável qualidade do curso de Relações Internacionais da FAAP.

Fica mais uma vez desmentida a decantada alienação de nossos jovens como uma falácia que se explica pela incapacidade de mostrar a eles análises lúcidas e qualificadas da realidade que lhes permitam refletir e discernir autonomamente: traduzir a realidade numa linguagem acessível, motivar a pesquisa, buscar múltiplos enfoques e incentivar posturas críticas não apenas situam os estudantes em seu mundo como, desmitificando a realidade permite a formação da cidadania enquanto atitude proativa longe das posturas ingênuas ou negativista que, permeadas pelo escapismo, geram a anticidadania.

(Blog Estadão de 18 de setembro 2020)

Critérios de avaliação: fortaleza ameaçada!

Professor Henrique Vailati Neto

No centro e no término das grandes crises da história encontraremos os grandes impérios como causas e como vítimas finais: deixando (por motivos óbvios) as causas da crise que vivemos, não há como olvidar que núcleos de poder e certezas, até então imbatíveis, serão profundamente afetados ou, mesmo, sacrificados.

Um dos mais duros núcleos na educação é, sem dúvida, a avaliação escolar: centro de poder, fator de promoção ou condenação de instituições, causa de júbilo ou fracasso humano, ponto de honra que, na vida escolar, polariza (indevidamente) as mais renhidas controvérsias.

Há alguns anos, refletindo sobre o tema, escrevi um artigo que intitulei “A ditadura da caneta vermelha”: partindo de uma autocritica, busquei circunscrever a poderosa cultura que envolve o “império da nota” onde centésimos de ponto podem gerar conflitos e decidir rumos de vida; espaço sagrado que se confunde com o poder das entidades escolares e que pode levar embates às barras da justiça...

Em que possa parecer exagero retórico típico da docência, lembramos o que a aprovação ou a reprovação escolar e o que um dez ou um zero significam e significaram na cultura escolar...

Pois, esse “império” se encontra, como tantos outros, no olho do furacão de profundas mudanças ou, no mínimo, de uma revisão radical que pode colocar em risco a própria instituição educacional: celeremente nos aproximamos do termo final do período letivo (para as instituições que lograram se adaptar às novas condições de ensino) e, a hora do fechamento final das notas; será o momento de se avaliar tudo o que foi feito por todos os elementos do processo escolar!

Prevendo tais dificuldades, o Colégio FAAP, tão logo se deu conta da extensão e duração da pandemia, começou uma cautelosa revisão dos critérios de avaliação que deverão nortear o novo processo de aprovação: resquícios ou padrões antigos (muito resistentes, por sinal), podem ser extremamente nocivos por não considerar a excepcionalidade ampla e profunda deste momento onde referências foram perdidas e o novo é pouco conhecido.

Buscamos criar novos padrões de acompanhamento do rendimento escolar alterado pelo distanciamento e pela intermediação informacional: se os menos avisados põem em dúvida fatores secundários (e facilmente detectáveis) como originalidade de trabalhos escolares, questões muito mais vitais se colocam como estreitas fronteiras entre o sucesso ou fracasso: a “solidão pedagógica” gerada pela perda da cultura física escolar e pela quase total ausência do estímulo do companheirismo, o temor pelo desconhecido, enfim, um universo desumano que potencializou a grande sensibilidade de crianças e jovens.

Na FAAP, tendo acesso a recursos avançados e a turmas reduzidas, pudemos adaptar e minimizar os arrasadores efeitos do distanciamento na produção escolar: as avaliações deverão ser produtos de intensa e regular observação e interatividade com os alunos; a dessacralização das grandes provas deverá buscada; trabalhos e temas deverão cuidar da criatividade e, sobretudo, de orientação e abordagens individualizadas.
Se o universo digital ampliou à exaustão a probabilidade de “desvios escolares”, permitiu, também, o aceso a um universo de pesquisas e recursos didáticos, interação e controle jamais imaginados: sujeitar essa modernidade ao serviço da educação é o desafio do novo milênio e não apena do momento!

Chegou, em definitivo, o fim das mesquinharias aritméticas, das “medidas rasas” da reprovação como símbolo único de seriedade e, esperamos, que se estabeleça o tempo da avaliação do esforço acima de resultados discutíveis!

E, sempre será tempo, de nos lembrar que avaliar é julgar, a mais difícil e arriscada empreitada humana!

(Blog Estadão de 11 de setembro de 2020)

A interdisciplinaridade: uma condição de sobrevivência

Professor Henrique Vailati Neto

Em nosso último blog voltamos à questão do lugar das ciências nestes turbulentos tempos, agora, sempre focando a educação, queremos mostrar um dos pontos de resistência à modernidade científica e educacional, a abordagem interdisciplinar, caminho inevitável (e já antigo) de se fazer e pensar ciência.

Quer pelas disputas da vaidade científica e acadêmica, quer por permanências retrógradas, ainda se briga pela delimitação de fronteiras e competências entre as ciências e as áreas do conhecimento, quando a interpenetração e a eliminação desses limites artificiais é uma via de superação de uma infinidade de problemas: se a especialização marcou e marca a ciência de vanguarda, a amplitude de visão é condição essencial de humanizar e dar eficacidade ao conhecimento.

De fato, o aprofundamento e a especialização vertiginosos do conhecimento fez com que o foco e pesquisas tivessem um grau absurdo de especificidade, mas, em igual proporção, cresceu o trabalho em equipes multidisciplinares abrangendo, cada vez mais, áreas que, antes, nunca se imaginaram em trabalhos conjuntos, muitas das quais competiam pela primazia por objetos de estudo.

Certamente, o leitor atento objetará: mas, tudo isso, não é discussão superada na virada do século do XX? Seguramente, se resíduos anacrônicos não estivessem vivos nas entrelinhas da contemporaneidade: assusta como, no senso comum e ocupando um espaço do inconsciente social, os limites do conhecimento ainda são mantidos em feudos mentais que dificultam que se trabalhe na “dimensão do todo”.

Nossa obrigação de educadores é trabalhar essa “lateralidade de visão” científica desde cedo para que nossos educandos de libertem desses “feudalismos científicos” e se deem conta de que o cidadão do futuro dependerá do grau e amplitude de sua visão para sobreviver ou, numa expressão contemporânea, de um enfoque holístico.

Para tanto, nosso Colégio, privilegiou e se orgulha de uma equipe pedagógica que pensa e trabalha muito fora dos limites míopes da má tradição escolar: o que não significa superficialidade ou aventura pedagógica, mas significa pensar a educação sem  fronteiras que não existem no mundo.

Projetos Interdisciplinares abrem espaço na programação regular para trabalhar de forma orgânica a realidade: tais empreendimentos pedagógicos são facilitados pela parceria com os cursos superiores da Faculdade FAAP que, dando profundidade a temas da atualidade, permitem criarmos os fundamentos para educar cidadãos para o futuro.

 Pretensão?
 Não!Necessidade premente de se combater sementes do obscurantismo que ameaçam germinar e comprometer o processo civilizatório.

(Blog Estadão de 28 de agosto de 2020)

Ciência e prepotência: uma péssima rima

Professor Henrique Vailati Neto

Sempre no encalço de tirarmos o máximo proveito do nosso atual contexto, trazemos outra reflexão que nos permite, juntamente com os nossos alunos, trabalhar a essência de uma das mais difíceis escolhas vocacionais: a área do conhecimento eleita para a vida profissional, quase sempre, resultado do nosso primeiro contato com o conhecimento.

As discussões sobre a importância desta ou daquela área das ciências marcaram a vida profissional de milhões de jovens pelos preconceitos e imagens preponderantes: na história recente, as ciências sociais foram estigmatizadas como subalternas ou, no dizer do vulgo, “perfumarias”; que não podiam se comparar às “ciências exatas”, produtivas, vitais para o progresso e não geradoras de discussões inócuas e perigosas. Generalizações destruidoras de vocações e irreais!

Ainda há pouco, essa ditadura das ciências da natureza perdurava imperial, exata, irretorquível, indiscutível, completamente estranha ao verdadeiro padrão científico, ou seja: construir hipóteses fundamentadas, reconhecer, sempre, o conhecimento como provisório, não criar leis pétreas, mas aceitar conclusões sólidas, debatidas, confrontadas e, jamais, verdades absolutas e definitivas!

Os poucos redutos da prepotência científica foram sendo derrubados pela virulência imprevista e desconhecida da pandemia, pela certeza das limitações do conhecimento: foi um desfilar de posições de cautela, de conclusões derivadas de milhares de horas de pesquisa e da colaboração de equipes multidisciplinares em colaboração global.

O que ficou patente foi o encastelamento da prepotência em núcleos de ignorância e de mesquinhez interesseira, numa franca demonstração de que, a verdadeira ciência, nasce do reconhecimento das limitações humanas ante a natureza e se fundamenta na humildade: nada mais emocionante do que a singeleza e a simplicidade de cientistas de vanguarda, de luminares da humanidade, trazendo a público suas dúvidas, revelando sua insegurança ante o ignoto!

Resgatar a grandeza da humildade enquanto condição do conhecimento é fundamental tarefa do educador nestes tempos em que os avanços tecnológicos criaram a mística de um poder de que não somos possuidores: chega a ser pungente a ânsia infantil do público ante as entrevistas que falam das limitações da medicina e da infectologia; é chocante a pequenez das soluções trânsfugas apresentadas pelos arautos do da ignorância, prepotente por vocação.

Ao velho professor que pautou sua vida por paradigmas da profissão, é inevitável o desfilar na memória as referências opostas no desempenho da educação: num espectro que vai de um extremo a outro da humildade ante o conhecimento, encontramos a essência da verdadeira pedagogia da formação científica.

No polo negativo, encontramos o intelectual dono de algumas luzes que, pela arrogância de suas posturas, mesmo  causando alguma admiração, intimida os alunos que, se “recolhendo à sua pequenez”, com medo de errar, evitam tal companhia temendo a vergonha do fracasso: seres que transformam lindas paisagens em espaços deprimentes, em zonas de perigo a se evitar.

No polo positivo, o verdadeiro mestre que, dono da “chave do conhecimento”, o apresenta como um atraente desafio e se oferece como parceiro na viagem, como um igual que sabe das dificuldades e ajuda a superá-las, que não se envaidece das  conquistas, mas que se plenifica com as vitórias do educando e o encoraja a  continuar: seres que transformam paisagens áridas em oásis desejáveis que decodificam a lógica impenetrável das ciências numa linguagem lúdica.

Levar os nossos alunos a observar tais posturas é uma das oportunidades que se apresenta e um das vitais oportunidades de repensarmos como apresentamos o conhecimento como devemos revestir conteúdos com trajes de atualidade, despindo as velhas e “sérias” posturas!

Quantas carreiras abortadas e vocações preteridas pela identificação do conhecimento com um “mau apresentador” que povoou pesadelos pedagógicos!

(Blog Estadão de 28 de agosto de 2020)

A gestão de um verdadeiro caos temporal

Professor Henrique Vailati Neto

A mais humana e terrível variável é, sem dúvida, a inexorabilidade do tempo: domá-lo, detê-lo, enganá-lo, suportá-lo, tudo termina em aceitá-lo como a definitiva referência da vida!

Nunca na História, o homem enfrentou medidas tão opostas e conflitantes do tempo e que, neste momento, aceleram o caos civilizatório que vivemos.

Se nossas vidas, ainda, são medidas em horas e minutos (referências incômodas e escravizantes amarradas em nossos pulsos, inscritas em quase todos os aparelhos que nos cercam), vivemos, da mesma forma, nossas rotinas no tempo do universo digital, o nano segundo, a milionésima parte do segundo e quando, este “tempo da máquina” hesita, nos parece que tudo está paralisado...

No polo oposto a esse tempo informacional fulminante, milhões de seres pautam suas vidas, rigorosamente, pelas éticas e valores multimilenares das religiões tradicionais que, enquanto reação à transitoriedade e inconsistência: um tempo que vive no limiar da imobilidade!

Tal caldo de tempos opostos e conflitantes geram, em nossos inconscientes, impasses que vão da profunda insegurança em nossos valores, à incapacidade de discernirmos a gestão adequada do cotidiano, a medida temporal a ser seguida e, aqui, chegamos ao ponto!

Voltar à “vida normal”!

Retornar às aulas presenciais!

Esperar as vacinas, ou a imunização de rebanho!?

Nesse emaranhado temporal, nossas urgências, nos fazem ignorar o bom senso e a ciência!

 Entre o tempo da“muito longa duração” (de Fernand Braudel) e a centelha temporal informacional, devemos localizar a medida adequada : nas maiores decisões é que o momento certo faz a diferença!

Eis mais uma grande tarefa didática a trabalhar com os nossos alunos, refletir sobre essa medida da nossa humanidade!

(Blog Estadão de 21 de agosto de 2020)

Os tempos do ser educando no isolamento: cuidados maiores

Professor Henrique Vailati Neto

Entre Cassandras e Polianas existe um largo território que o educador deve povoar sempre: da mesma forma que quem vive para educação não pode se banhar nas águas turvas do pessimismo, não pode o educador se encantar com quimeras; para nós, não importando a rudeza do momento, a estrela da esperança deve ser o norte.

Buscar, sempre, lições no viver as dificuldades tem sido um exercício salutar e extremamente útil, embora cada vez mais difícil...

Se a pedagogia tem como pressuposto basilar o princípio dos ritmos de cada educando e o sagrado respeito a eles (embora a educação de massas faça ouvidos moucos a esse óbvio...) a observância cuidadosa dessas velocidades individuais de maturação e aprendizado, na intermediação tecnológica que vivemos, tem exigido um constante cuidado: o afastamento físico implica, também, na dificuldade de observarmos, de perto, o milagre do crescimento.

Para amenizar tal lacuna, nosso Colégio, redobrou o acompanhamento individualizado de cada aluno em cada aspecto das diversas disciplinas, tanto para se atender a demandas e carências pontuais, quanto para se ajustar critérios de avaliação: verdadeiros calcanhares de Aquiles da educação e que já comprometeram muitas vidas através do tempo!

No mesmo foco do “tempo fugidio” (não perdido como apregoam alguns...), somos surpreendidos pelas surpresas do crescimento: nas crianças e adolescentes o passar de dias marcam profundas transformações físicas, intelectuais e psicológicas de que somos grandemente privados pela intermediação virtual: algumas semanas, sem um contato mais próximo, e partes de um novo ser surgem pelo milagre da vida!

Mais que roubados desse inefável prazer de acompanhar um ser se desenvolvendo, o distanciamento físico atrofia a nossa percepção para as novas demandas desses seres em mutação: pelo reduzido contemplar de rostos em monitores, pelo diálogo modificado pela via informatizada já podemos nos damos conta de que somos atropelados pela vida que não desacelera para nos esperar.

Se não quisermos que os pessimistas tenham razão ao falarem em “tempos perdidos” (aliás, todos eles deveriam ser banidos da educação!), há que ficarmos em alerta máximo, não apenas para não sermos surpreendidos por “novos antigos” alunos que receberemos no retorno presencial, mas para que possamos continuar a orientar e amparar os nossos alunos como sempre fizemos: eles estão crescendo de uma forma diferente do que já vimos!

Para tanto, temos insistido em nosso Colégio, na interatividade, na mais intensa e constante participação dos alunos no processo de aprendizado, fazendo-os, enquanto sujeitos da educação, nossa maior referência o que sempre foi a nossa marca!

(Blog Estadão de 14 de agosto de 2020)

Educar para ponderar: outro desafio de nossos tempos

Professor Henrique Vailati Neto

Passamos, na nossa FAAP, parte do recesso de férias e, sobretudo, nesta primeira semana, nos recriando para, a cada dia, enfrentar o desconhecido sem perder de vista os nossos objetivos pedagógicos.

Concentrados nessa tarefa, vamos tateando o nosso contexto tomados pela sensação de que o quadro de crise que se estabeleceu está exigindo dos educadores a atenção para novos desafios de premência inusitada: são tantos os despautérios divulgados  que nascem das mais variadas e, a princípio, de “confiáveis origens”; são tantas as notícias falaciosas e é tão grosso o caudal das contradições que nos bombardeiam que parece que foi decretado o falecimento do bom senso e da própria lucidez.

Se, no topo da lista das notícias comprobatórias do dessa realidade, está uma das moléstias culturais que nos assolam, as fake News;  no mesmo sentido e, tão nocivo quanto, encontramos  pessoas bem postas (como diria minha avó) trombeteando absurdos sobre os mais variados assuntos em dissonância às mais elementares posturas científicas e de conduta social civilizada.

Não cabe exemplificar, quer pela evidência noticiosa, quer pelo respeito à sensibilidade de um incauto leitor que se aventurou por este texto: acompanhar o noticiário se tornou uma verdadeira aventura ad nausean...

Assim, no conjunto de todas as habilidades intelectuais e emocionais que trabalhamos, em paralelo aos conteúdos essenciais para a formação de nossos jovens, somos obrigados, mais e mais, levar os nossos alunos a exercícios de reflexão crítica sobre a grandes questões da atualidade de forma a que tenham posturas autônomas e que, acima de tudo, se exercitem na difícil tarefa de escoimar informações de conteúdos espúrios.

Para tanto, aumentamos a dedicação a trabalhos interdisciplinares centrados em nossa disciplina de Painéis de Realidade, constituindo-se em mais uma trilha formativa. Nesse esforço, teremos rica a parceria do Curso de Relações Internacionais da Faculdade FAAP e seus professores.

Resgatar a capacidade de olhar o mundo com  um olhar crítico é o caminho para e conseguir resgatar a grandeza da era da informação retirando-a do lamaçal em que está mergulhada, tudo o mais é entregar as novas gerações ao cadafalso da ignorância informada!

(Blog Estadão de 07 de agosto de 2020)

A excepcionalidade impondo inícios permanentes: a falácia do reinício...

Professor Henrique Vailati Neto

Ponderar o pouco ponderável, mantendo as metas, é percorrer um caminho nunca antes previsto: continuamos a discutir a retomada, o reinício, o refazer, palavras pouco adequadas para o que enfrentamos, uma vez que novas fórmulas deverão ser, constantemente, criadas, pois as “inovações antigas” poderão ser inúteis, ou seja, não podemos insistir no “re”.. .

Para estas gerações que não haviam enfrentado o imprevisível e que nasceram acreditando serem possuidoras do direito à felicidade, acordar, a cada dia, sempre com novas dúvidas, é a variável dolorida sobre a qual devemos construir nossos projetos.

Mesmo que, se para uma minoria, a ciência é uma simples questão de opinião, para outra parcela, ficou evidente que as ciências (referências civilizatórias), operam para diminuir as incertezas: ou seja, conquistas do conhecimento são, sempre, patamares provisórios, que, não colidindo com os valores éticos, constroem o que podemos chamar de evolução humana.

Vivemos uma realidade na educação que não mais aceitará o velho maquiado, não permitirá as velhas e caras aventuras comerciais iluminadas pelo neon camuflador de adaptações feitas a partir de fórmulas estrangeiras: mais do que nunca, a educação deverá se voltar à realidade específica de cada cultura, trabalhando carências e potencialidades específicas; as desgastadas abordagens massificantes deverão ficar restritas aos bancos de dados e à inteligência artificial.

Resgatar o educando como sujeito da educação é a tarefa a que, definitivamente, nos obrigamos e que implica num repensar diário das habilidades intelectuais e sociais que o futuro exigirá atendendo aos anseios da nova geração.

 Se perscrutar o futuro é, definitivamente, trabalho inglório, amparar os jovens na construção de seus projetos é sagrada obrigação: foi o tempo em que os mais velhos definiam os sonhos dos jovens como mortalhas de chumbo os condenando a uma vida de escravos dos anseios alheios.

Criaremos, em cada dia, um novo dia!

(Blog Estadão de 31 de julho de 2020)

A “ciência” de contextualizar as avaliações

Professor Henrique Vailati Neto

Raros foram os momentos da história recente em que, como nestes, tanto se valorizou, quanto se esperou e se discutiu a ciência: desde achados absurdos do mais profundo e chocante obscurantismo, até uma reverência de há muito negada aos cientistas.

Entre outras coisas, o que marca a abordagem científica é o método de se olhar para um objeto no sentido de se garantir um conhecimento o mais seguro possível e, assim, se começa por se contextualizar tal objeto, ou seja, identificá-lo em sua realidade específica.

Se a introdução ampliada nos permitiu um desabafo, também, foi um apelo para que, nestes tempos de anomalias profundas e inesperadas, pudéssemos introduzir mais um tema oportuno nesse processo de educação a distância: como considerar e ponderar as avaliações escolares, sobretudo, quando as primeiras “notas na exceção” surgem .

Se existe um calcanhar de Aquiles na vida escolar, esse é o sistema e os critérios de avaliação: avaliar com justiça, considerando as peculiaridades e condições de cada educando sem submetê-los à “vala comum” das massificações, é tarefa de suma delicadeza para quem avalia e para quem interpreta a avaliação.

Quantas vocações e vidas não foram severamente afetadas pelos “deuses das canetas vermelhas” e suas impiedosas notas que, por incrível que parecer possa, ainda sobrevivem espalhando a deseducação e suas metástases¿

Em nosso Colégio (como naqueles em que cada educando é um universo próprio a ser respeitado), múltiplos e constantes instrumentos de avaliação buscam acompanhar e documentar o seu desenvolvimento: ou seja, as notas devem documentar um processo e não, apenas, alguns momentos; no mesmo sentido da busca da mais realista constatação do aprendizado, as notas devem considerar as condições específicas de cada estudante, se para muitos a média é 6, para alguns deve ser 4 e, para outros, 8.

Se, hoje, cada segmento de nossas vidas exige uma releitura para ser contextualizado no “universo da pandemia”, lembro a todos, como lembramos a nós educadores, que essas primeiras notas foram produzidas e obtidas em condições extremamente anômalas nas quais, todos os envolvidos no processo tiveram que se reinventar.

Prezadas famílias fiquemos muito orgulhosos de termos conseguido ajudar nossos filhos a saírem da cama e ir para a escola bem ao lado do travesseiro!

Agradeçamos a sorte de termos instrumentos e acesso a uma educação a distância na qual toda uma instituição se uniu e se debruça sobre o caos para construir uma nova ordem!

Busquemos, como sempre o fizemos e, agora, mais do que sempre, engrandecer as conquistas de nossos filhos e ajudá-los a encarar suas falhas como pontos de apoio para a esperança!

Mas, fraquejar e conceder, pode fazer nascer uma geração e coitadinhos incapazes de sobreviver ao que virá!

(Blog Estadão de 15 de maio de 2020)

Na educação a distância para nativos digitais, tecnologia é passado

Professor Henrique Vailati Neto

Assim que iniciamos o processo de educação reduzida à distância, alguns pontos de minha dissertação de mestrado que tratava da comunicação virtual nas organizações, voltaram à minha atenção: dentre eles, destaco, o fato de, diferentemente das gerações pré-digitais, os nativos digitais não cultivarem o fetichismo informacional.

Ou seja, inexiste nos jovens qualquer traço do encantamento que, nos mais velhos   (ainda que residual e inconsciente), dá às inovações um potencial que extrapola sua real condição de meros instrumentos: a ausência dessa idolatria, facilmente constatada, têm provocado uma rápida saturação no potencial pedagógico das decantadas como mais modernas ferramentas informacionais. Para esses jovens, o “incrivelmente disruptivo”, se de fato interessa, é rapidamente incorporado e banalizado.

Ou seja, não há que se contar com nenhum traço de sedução no uso exclusivo de ferramentas de TI, pelo contrário, devemos considerar que, além de não terem nenhuma novidade, são saturadas de aridez da ausência de maior calor humano e perdem, de longe, para o intenso uso lúdico com que são utilizadas, constantemente, para fins outros.

Considerando que “o tempo de combate” possa ser muito mais longo do que previmos e desejamos, a cruel ausência do contato físico já nos obrigou, em nosso Colégio, a uma séria revisão de nossas estratégias no sentido de reformulá-las para evitarmos saídas arriscadas como antecipação de férias: considerando que o pico da pandemia no Brasil pode coincidir com o inverno e pelos desdobramentos atuais...

 Assim, como qualquer ferramenta, as Tis necessitam de constantes e acuradas revisões de uso e formas para, nos valendo de sua plasticidade e potencial de recursos, atender às muito especiais condições de uso que o atual contexto exige. Em recente artigo, Salman Khan que, ícone do ensino a distância, preveniu das limitações  dessas ferramentas o que confirma a nossa certeza de que estamos, também na educação, passando por um desafio muito mais agudo do que se imagina e que fica camuflado pelo transe sanitário.

Para tanto, antes de se aceitar soluções apressadas, há que se estreitar e aprofundar a simbiose família e escola, quer para se atenuar uma potencial exaustão pedagógica, quer para se aliviar o desespero das famílias pela sua incapacidade de apoiar a educação de seus filhos: ainda devemos considerar que, a perspectiva das férias, pelo andar da pandemia, poderá ser um fator de agravamento de tensões e frustrações que devemos prever e preparar pois, como nunca antes, teremos um ócio confinado...

Necessitamos ter uma noção mais exata das dificuldades familiares, dos entraves de aprendizado para que possamos criar, dia a dia, condições mínimas de um processo proveitoso porque agradável, caminho único para se educar. Encantamento e educação constituem um binômio pétreo cujo desrespeito fez legiões de frustrados, mas cuja obediência fez a humanidade crescer!

(Blog Estadão de 08 de maio de 2020)

Muito além da Biologia: para viver nossa própria História

Professor Henrique Vailati Neto

Filho de professor e professor de História fiz dela meu lazer e  justificativa para poder estar onde sempre desejei, numa sala de aula.

Mas, sem dúvida, o que mais me cativou, foi a forma como a História me foi apresentada: numa narrativa envolvente, rica e fidedigna, meu pai me contava sobre a História por ele vivida, de como revoluções, momentos importantes o fizeram um ser de seu tempo. Aprendeu a ler com a mãe, minha avó, nas manchetes de O Estado de São Paulo, ou seja, foi alfabetizado contemplando a vida.

Nestes tempos de pandemia, onde muitos se perguntam se a humanidade amanhecerá diferente, uma resposta que tem sido recorrente: nada será diferente a grande maioria das pessoas torce para tudo voltar à rotina, para o sistema reagir e para que possamos esquecer tanta tristeza e voltarmos à “normalidade”.

Pois isso, é tudo o que os educadores não devem permitir!

Como esquecer os imensos sacrifícios humanos que testemunhamos¿
Como não revisitar, sistematicamente, e refletir tão densa e trágica página de nossas histórias¿

Não existem justificativas para encobrirmos ou atenuarmos os fatos. Sempre considerando o grau de sensibilidade e a capacidade de entendimento de nossos educandos, há que colocá-los, face a face à sua própria história, de forma corajosa e ética!

É certo que a Biologia ganhou, evidentemente, lugar de destaque, mas, jamais, poderia ceder a primazia à História e à Filosofia para evitarmos que, essa imensa, profunda e desnorteadora crise não plasme uma geração perdida, pois este é o grande risco de sairmos em busca de retorno a um mundo inexistente!

Às crianças tenho aconselhado a fazerem diários que, amenizando o real, em seu rico imaginário, possam construir a sua crônica de época de forma a, estando protegidos, conseguirem, com suas limitações, terem uma visão do mundo exterior.

Aos demais, a visita crítica às manchetes, o passeio pelos acontecimentos amparado e estimulado pelos educadores deve construir a narrativa de suas próprias histórias: nada é tão melancólico do que, ao se comentar uma época com um alguém que a viveu, presenciar reações de estranheza. Nada menos humano do que ser um estrangeiro em seu próprio tempo!

Se vivemos um tempo de transe profundo, temos que dele nos apropriarmos para, com ele, aprendermos, pois nada é mais imbecil do que não aprender com suas próprias dores e achar que cicatrizes não escrevem histórias indeléveis em nossas peles!

(Blog Estadão de 01 de maio de 2020)

Estudando com o Mestre Corona II

Professor Henrique Vailati Neto

A inevitável imposição da educação a distância (mesmo que torçamos muito pelo retorno à normalidade  deste transe), nos obriga a refletir, ponderar e armazenar estas experiências enquanto riquíssimo laboratório de testes que, mesmo torcendo para que, jamais, se repita, servirão para que possamos avaliar potencialidades e equívocos dos métodos e ferramentas de TI aplicados à educação.

Sempre insisti no pouco (proporcionalmente falando), que se estudou as transformações ocorridas no “convívio humano” pela comunicação no espaço digital: é improvável que  a qualidade das interações nesse espaço não tenha sido profundamente alterada. Se as alterações são complexas e de difícil aferição, fica a certeza de sua  existência e a urgência de compreendê-las sobretudo, agora, quando nossas vidas ficaram quase que limitadas a elas e, no caso da educação, totalmente limitadas...

Às considerações feitas sobre essa nova modalidade de educação, acrescentar os riscos adicionais que corremos quando submetemos crianças a elas (sempre lembrando da diferença abissal entre educação e ensino, coisa ainda difusa para a maioria): em crianças cuja presença físicas das “tias” faz toda a diferença, o distanciamento, por mais que, hoje, os meios digitais sejam “normais” a elas, o vazio que se abre pode ser muito comprometedor, é um tempo em que atenção, ternura e contato físicos fazem toda a diferença.

Tal vácuo se agrava, perigosamente, quando menosprezamos a necessidade, humanamente vital, do convívio das crianças com outras crianças: tão importante  quanto professores, muito mais importante do que qualquer material de apoio, o espaço do recreio, as brincadeiras ao redor dos conteúdos e das atitudes docentes, são os catalisadores do projeto pedagógico, como fazê-lo viável sem esses fatores é o crucial desafio!

Aqui já não menciono, por merecer um capítulo substancioso e aparte, a enorme carência dos avós para aqueles que os têm e que, agora, foram brutalmente privados.

O que estamos sentindo, é o florescer de uma educação que se tornou insípida e deseducadora, pois quase reduzida, cruelmente, a conteúdos, a exercícios desumanizados, robotizados e em regimes que minimizam a riqueza do imaginário infantil e da sua necessidade vital do lúdico e do encantamento que só a intermediação humana direta consegue imprimir com efetividade.

Aqui, é indispensável a presença da família enquanto supridora desse calor humano, enquanto gerenciadora e neutralizadora, da quase sempre presente, aridez das didáticas implementadas a distância: não deve e não pode, no que se refere à educação infantil, a família querer reduzir seu papel, nessa educação formal domiciliar, à função disciplinadora, ela deve buscar, na medida do possível, o calor humano que justifica e efetiva a educação.

Na educação a distância é que se desnudarão as verdadeiras naturezas dos projetos pedagógicos que as famílias contrataram; aqui, a importância do educando, enquanto sujeito do processo de aprendizagem se revelará, pois, tal evidência, saltará aos olhos pelos esforços de abordagens humanizadas, pois individualizadas e, assim, centradas em um cuidadoso e exaustivo esforço de envolvimento e apoio a todos os atores da educação secundarizando objetivos menores.

(Blog Estadão de 24 de abril de 2020)

Estudando com o Mestre Corona

Professor Henrique Vailati Neto

Se aprender com o Mestre Corona depende de se estudar com ele, esta foi outra  tarefa que os professores e a equipe do Colégio FAAP tiveram que enfrentar em simultâneo desafio a muitas outras: ajudar os nossos alunos e suas famílias a reorganizarem, física e qualitativamente, suas vidas escolares só foi possível graças à proximidade entre os parceiros nesse intrincado jogo de sobrevivência.

A reorganização da vida, que parecia, num primeiro momento, desnecessária por não crermos na efetividade e no alcance da pandemia, se impôs abruptamente, nos obrigando a um esforço emergencial, onde cada agente do processo, teve que se adaptar pensando nas dificuldades dos demais participantes, ou seja, sem saídas individuais.

No caso das escolas, as demandas dessa “nova vida” potencializam a complexidade  das ações: manter um padrão comum e coerente das novas abordagens didáticas a todas as disciplinas , acompanhar em tempo real  (mas a distância), as dificuldades de cada aluno, demandaram e exigem uma atenção acurada e um franco diálogo entre todos os atores do processo.

No sentido de deixarmos uma pequena contribuição aos nossos leitores, abordaremos alguns pontos desse “estudar novo” que buscamos trabalhar com os alunos do Colégio FAAP.

A separação virtual no espaço doméstico, do espaço de estudo, tem sido um grande obstáculo e impõe a criação de um imaginário específico que permita a separação entre ambos (estando unidos): estar em casa numa situação escolar obriga a uma disciplina que, isoladamente, os alunos não logram, mas que não pode ser eternamente tutelada, o apoio da família é essencial na medida em que permita a subsequente autonomia dos alunos.

Aí, se acentua uma confusão, comum aos nossos jovens, e que sérias dificuldades  trazem para as relações escolares: a confusão entre o público (escola) e o privado na qual, a não definição clara dos limites, tem consequências danosas, sobretudo sob o aspecto pedagógico.

Estabelecer uma disciplina de horário de trabalho foi o ponto crucial: disponibilidade de computador na família, local de estudo e sossego no ambiente, tudo isso deixamos por conta do bom senso e da própria estrutura familiar, mas o respeito ao horário das aulas virtuais, dos exercícios e entregas de trabalhos, foi uma difícil tarefa de disciplinamento construída pela pertinácia e convencimento de nossos professores e equipe na criação de novos conceitos de responsabilidade e de trabalho.
No contexto em que estamos operando a educação, responsabilidade, apoio, paternalismo excessivo e autonomia são peças de uma muito delicada arquitetura que pode se estilhaçar em qualquer descuido!

O intenso uso do espaço virtual que essa geração de nativos digitais tem, nunca afastou, em minhas reflexões, a desconfiança de que a tecnologia sempre foi, muito mais, uma ferramenta de lazer do que de trabalho: de certa forma, essa minha grosseira hipótese, se confirma por uma certa e mal disfarçada resistência que nossos alunos têm a trabalhos escolares mais sérios, metodologicamente conduzidos e duradouros no uso de TI.

Uma hipótese vaga, mas que pode vir a ser útil, se comprovada, e trabalhada em alguma medida...

Ao tratarmos da questão da gestão do tempo escolar, é muito importante fazer o aluno respeitar prazos e disponibilidade do atendimento pela escola: mesmo que as plataformas utilizadas parametrizem, didaticamente, o uso e o tempo de suas ferramentas, a sensação de intemporalidade que o meio digital proporciona, pode comprometer o método, pois “a escola está em casa” sem sinais e limitações físicas...

Outro aspecto importante se destacar é o do risco da desmitificação de provas e trabalhos e sua consequente desvalorização e danos pedagógicos: mesmo que acostumados a uma parcela de tarefas em espaço digital, o peso e a importância (muitas vezes demasiado) dos trabalhos e avaliações fora do meio físico, geram, num primeiro momento, um certo descaso pelos mesmos que só ganharão respeito e valor com resultados negativos, notas baixas... Daí a importância de se fazer, desde o início, a “conversão dessas moedas”.

Voltaremos ao assunto, pois o tema e as experiências o permitem.

(Blog Estadão de 17 de abril de 2020)

Aprendendo e educando com o mestre corona

Professor Henrique Vailati Neto

Em meio à epidemia de informações, cabe ao educador se afastar de temas que desconhece deixando-os a especialistas: estamos todos enojados de ver grandes espaços ocupados, na mídia, pela prepotência ignorante (redundância...).

Dessa forma, nos obrigamos, na nossa limitada medida, chamar a atenção para alguns aspectos que descortinamos neste inusitado panorama como contribuições para  educar com o mestre corona.

Um dos aspectos mais contundentes e, talvez, mais críticos do que temos assistido é o decorrente da não percepção das abissais diferenças entre ensino e educação a distância: a não percepção de tais diferenças pode significar a perda de energia, de tempo e da não obtenção de metas essenciais no projeto pedagógico.

As principais ferramentas do EAD foram criadas para passar informações, foram formatadas para treinamentos e, no caso da educação, como utilíssimo complemento do ensino regular, ou seja, não foram elaboradas para educar!

No caso da educação de massa, o EAD se transformou numa inesgotável e muito eticamente discutível fonte de lucro o que lhe conferiu sofisticação para um crescente leque de recursos e que, de qualquer forma, apenas resvalou projetos educacionais: é justo que se diga que essa não era sua intensão original.

Ante a emergência que estamos sendo obrigados a enfrentar, é plenamente justificável que o recurso ao EAD tenha sido uma saída de emergência, mas que deve ser repensada e adaptada para a educação e aproveitada melhor em seu potencial.

Num colégio de nicho como o nosso, com turmas reduzidas e um projeto pedagógico de construção coletiva, a transição está demandando um enorme esforço de todos os envolvidos para que se consiga assegurar, no trabalho de educar, as individualidades; para que mantenhamos os alunos enquanto sujeitos de sua formação, para que os orientemos a se apropriarem da informação e transformá-la em conhecimento pertinente ou seja, superar a pequenez dos conteúdos como objetivos maiores.

A reformulação do nosso trabalho e a adequação da ferramentaria informacional está demandando, para todos os envolvidos, um colossal, mas gratificante esforço criativo e a certeza de que uma equipe competente e, acima de tudo, unida por um ideal, nos permitirá lembrar com orgulho esta batalha.

(Blog Estadão de 10 de abril de 2020)

A pedagogia da peste

Professor Henrique Vailati Neto

Se prefiro a palavra peste ao seu sucedâneo eufêmico, pandemia, é porque a força histórica do termo traduz melhor alguns comportamentos que vemos brotar, insidiosamente,das fissuras deste contexto.

Obrigo-me a retornar ao mantra: ninguém ensina ninguém, se pode ajudar, apoiar, incentivar e consolar. O que ensina é o exemplo!

Ouso um pouco mais: não será o cruel exemplo da crise que promoverá aprendizado geral, alguns aprenderão, a grande maioria voltará, mais amarga, a ser o que sempre foi, mas o jovens é que poderão aprender, porque imunes à prepotência empedernida causa das desgraças humanas, estarão sensíveis ao novo!

É tristemente curioso que, ante o desabrido esforço de professores, assessores e técnicos para se produzir uma adequada pedagogia que possa atender ao absolutamente inusitado do momento, recebemos, de retorno, umas poucas críticas e nenhuma contribuição: se a superação do desafio está na boa vontade, na união, parece que não começamos bem, tomara que seja medo e não a eterna busca por culpados marca dos inoperantes.

Nunca será demais dizer que as fórmulas de há pouco já se mostraram velhas, e as tentativas de se adaptar “recursos pedagógicos de prateleira” não passam de grosseiras dissimulações, pois há que se recriar, inovar, pois a etimologia da palavra  crise é ruptura e, nela, fende-se um espaço entre passado e o desconhecido.

Assisti, preocupado, a oferta “desinteressada” de ferramentas pedagógicas no mercado: se, num primeiro momento, ressalta um sentimento de solidariedade, por outro, fica patente que, ainda, não se percebeu a terrível diferença entre Ensino a Distância e Educação a Distância: o primeiro é instrumental informativo criado e utilizado, muitas vezes, com fins mercantilistas, a segunda, é um projeto pensado, cuidadosamente, para incentivar, apoiar e criar condições para que o educando, se apropriando dos recursos oferecidos, construa sua formação.

Dessa forma, o ensino de massa pode até colaborar, mas jamais educará, pois ignorará peculiaridades do indivíduo e seu contexto cultural terreno único de fertilização do educar.

É certo que uma pluridade enorme de instituições não dispõe de recursos técnicos para atender às demandas que se apresentaram, é perfeitamente justificável que, diante do choque do inusitado, muitos ficaram paralisados e recorreram ao “mesmo de sempre” não se dando conta de que o “sempre” deixou de existir. Mas o que mais apavora é a enorme falta de vontade e competência para encarar o desafio, superar o medo e criar o novo como única alternativa civilizatória.

Vendo nossos professores e equipe passando horas para continuar a educar nos tempos da peste, percebo a sorte que temos em ter um grupo de elite que, longe das manchetes pedagógicas educa apesar de tudo e de tantos.

Quanto os arautos da ignorância terão de assistir de tragédias para se darem conta de que cultivando uma inércia suicida¿

(Blog Estadão de 03 de abril de 2020)

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